sábado, 8 de novembro de 2008

De como a arte, evidentemente, degenera:

Depois de uma aula de mestrado e com enormes saudades do tempo "de café" de Coimbra.

Na metade da década dos 50 (do século XIX), Charles machuca o seu fígado absinto tras absinto numa esplanada de um café parisino. Uma mulher de luto caminha pela rua. Charles observa e ela, fugazmente, cruza a olhada com a do poeta. Um par de absintos depois, pega na caneta:

A uma transeunte

A rua ensurdecedora em meu redor berrava
Alta, esguia, de luto carregado, dor majestosa,
Um mulher passou, com sua mão faustosa
Erguendo, baloiçando as flores e a bainha

Ágil e nobre, com sua perna de estátua,
Eu bebia, crispado como extravagante,
No seu olhar, céu lívido onde nasce o furacão,
A doçura que fascina e o prazer que mata

Um raio… em seguida, a noite! __ Beleza fugitiva
Cujo olhar me fez repentinamente renascer,
Só voltarei a ver-te na eternidade?

Algures, bem longe daqui! Demasiado tarde! Nunca talvez!
Eu não sei para onde fugiste, tu não sabes para onde vou,
Tu que eu teria amado, tu que sabias que sim!

(Charles Baudelaire. As flores do mal)


Bar Veloso, Brasil, 1962:

Vinicius de Moraes tem a olhada perdida no seu Dry Martini enquanto Tom Jobim engole caipirinha tra caipirinha numa esplanada de Ipanema. De repente, uma cotovelada do Tom acorda ao diplomata. Uma loura espectacular desce caminho da praia. Os poetas ficam calados ante aquela marabilha. Essa noite, um balbuciante Vinicius tenta atravessar toda a sua bebedeira para recitar ao Tom (cabeça apoiada contra o piano, algúm resonar pouco discreto) a letra de uma nova música.




Café Tropical, Coimbra, terça feira, 14:30, 2007

Manel Afonso desenha no único caderno que tem desde que começou o curso, tres anos atrás. Antuán reparte o seu aborrecimento entre espreitar ao longe a montra da libraria e folhear o jornal. Na mesa, dois cafés. E media dúzia de cervejas, o orzamento nom dá para mais. Uma erasmus da Moldávia desce a rúa caminho da baixa. No seu percurso, passa por diante da mesa dos dois prakys. As actividades intelectuais (desenhar, aborrecer-se) cesam. O tempo detem-se. Quando passou, e reparam no facto, a sensibilidade nasce ao unísono e num idioma alheio:

- "Dioz mío! Que pedazo de jaca!"


O voyeurismo é o mesmo. O que muda é o talento.

(Manel Afonso olha para este blog e pensa: "Sim, mas eu essa semana estou a aborda-la no Noites Longas... que fique Baudelaire com as flores do mal pra si).

(Que saudades do tempo de nom fazer nada!!!!!)

4 comentários:

Mario disse...

Erasmus de Moldavia?
A onde imos chegar...

Beatriz Pérez disse...

menudo duo cómico o antuan e o manel afonso!!

Antuán disse...

A eslovenia... a eslovenia é un país con moitas posbilidades...

A verdade é que ando con imensas saudades da "vida axitada", agora que ando da faculdade pra casa e da casa pra faculdade.

Os cafés que demoran tardes!!
Os campionatos de cús nas escadas monumentais!!
As cervexiñas na Sé Velha!!
(sospiro! Vou pra faculdade traballar...)

Turzi disse...

he he he!
obrigado, Antuán, por me faceres lembrar Coimbra, oito, non, nove anos despois, xa.
canta saudade!
nos meus tempos alá non eran moldavas nin eslovenas, mais poderían ser algunhas checas, suecas ou caboverdianas...
saúde!